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Segunda-feira, 1 de Outubro de 2007

Contos de Fadas

Olá a todos,
visto que muitas das pessoas que eu ajudo a emagrecer (principalmente), tem problemas de relacionamentos, que geram stress e... as levam a comer (demais), hoje cruzei-me com este artigo que, depois da vossa apreciação, talvez possa surtir algum efeito positivo (é essa a minha esperança!) 

À semelhança das "dietas" - que se querem fáceis e com resultados rápidos (leia-se irrealistas e desastrosas vivências...) também muitos de nós acredita em contos de fadas nos relacionamentos amorosos (leia-se irrealistas e desastrosas vivências...)!

 

Boa leitura e votos de muita serenidade.

 

Madalena Muñoz
Nutricionista
www.madalenamunoz.com

 

*A DESGRAÇA DO SÉCULO*

*João César das Neves**
professor universitário
naohaalmocosgratis@fcee.ucp..pt*


Este tempo sofre muitas desgraças, na guerra, ambiente, saúde, etc. Mas a
maior de todas é acreditar nos contos de fadas. Essas lendas infantis são
muito antigas e sucessivas gerações as narraram, mas todas sempre souberam
que se tratava de fantasia. Este é a primeira época que realmente acredita
nelas, criando terríveis efeitos sociais.

Os contos de fadas têm muitas personagens fictícias, mas as mais incríveis
são... o príncipe e a princesa. São incríveis, porque aquilo que fazem no
conto é sempre casar e viver felizes para sempre. Ora toda a gente que está
casada sabe que não se consegue viver feliz para sempre. Esse desejo é,
aliás, o maior obstáculo à construção da verdadeira felicidade. Os casais
bem sucedidos, aqueles que se amam para sempre, não são sempre felizes.
Vivem no meio de alegria e comunhão, mas também de ocasionais dúvidas e
zangas, bastantes sofrimentos e desilusões. Amam-se sempre, mas muitas vezes
com alguma infelicidade. Neste mundo nenhum ser humano consegue ser feliz
para sempre, sobretudo a dois.

Dizer isto hoje é a suprema heresia, pois, com fé inabalável na televisão,
este tempo acredita piamente nesse aspecto central dos contos de fadas. Os
jovens hoje, livres de fazer o que quiserem, sentem direito a felicidade
principesca. Passado o fogo inicial, perante o menor problema, obstáculo,
desentendimento, concluem que se enganaram. Se não conseguem ser sempre
felizes, então este não é o prometido parceiro encantado. Desfazem a união
partindo esperançados para outra.

Os tempos antigos sabiam tudo sobre namoro, amor, paixão. Mas também sabiam
que casamento era mais que contos de fadas. Casamento era família, futuro,
estatuto, estabilidade. Construir um amor a dois, estabelecer uma casa,
assegurar uma herança, perpetuar e educar uma prole dá muito trabalho. São
coisas demasiado importantes para serem deixadas a fantasias. Havia muitos
casais felizes, mas muitos mais casais sólidos. Nesses tempos um casamento
não era um contrato que as partes podiam denunciar. Era um casamento.

A solução antiga estava longe de ser perfeita, gerando infidelidades,
frustrações, recriminações. Mas evitava o descalabro actual. Porque a nossa
crença nos contos de fadas criou um caos social de primeira grandeza. E,
pateticamente, não reduziu as infidelidades, frustrações e recriminações. Só
as tornou banais. Procuramos escondê-lo para podermos manter a fé nos
sonhos, mas essa fé trouxe a desarticulação da família, com consequências
sociais devastadoras.

A família é a célula-base da sociedade. Antigamente nunca se dizia isto,
porque se vivia isto. Os princípios só são enunciados ao deixarem de ser
respeitados. Quando a finalidade central deixou de ser a família para ser o
conto de fadas, surgiu a desgraça do século. Chamamos "novos tipos de
famílias" aos estilhaços resultantes dessa desgraça. O casamento passou a
ser uma relação mais fluída que o vínculo laboral. Os casais habituaram-se a
desligar a sua vida real do momentâneo sonho idílico. As crianças passaram a
viver órfãs com pais vivos ou, pior, com demasiados pais.

O mais terrível é que a fé nos contos de fadas, além de minar os fundamentos
da sociedade ocidental, não trouxe mais felicidade. Trouxe vidas decepadas,
estraçalhadas, remendadas. Adultos desenganados, cínicos, apáticos, ou
viciados, tacanhos, corruptos. Idosos desamparados, solitários, tristes. Nem
a evidência da explosão da depressão, droga, crime e suicídio, apesar da
prosperidade, nos fazem perceber que há algo de muito errado na nossa opção.

Há mais liberdade, mas não se vêem hoje mais pessoas felizes, mesmo que seja
só por algum tempo. Há mais embriaguez, sofisticação, reinvindicações, mas
não mais felicidade. Antes, sem poder escolher, muitos aprendiam a ser
felizes com o que tinham. Hoje, sonhando com o impossível, tantos sacrificam
a felicidade realizável por sonhos enganadores. Não espanta que o tempo que
acredita nos contos de fadas tenha sido aquele que criou um novo tipo de
novela: o filme de terror.

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Publicado por Madalena Munõz às 18:12
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Madalena Muñoz
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